Pelourinho de Paranaguá, IHGB - Foto: Etel Frota

Ignácia: a vida provisória

Ela me foi apresentada por Eduardo Spiller Pena, o Edu. Padre dominicano que, ao lado de Paulo Botas foi matriz das mais principais para a construção de Frei Tristão, com suas exegeses e liturgias pouco ortodoxas. Mas hoje não é dia de falar de padres. Hoje é dia de Ignácia.

Ignácia existiu, de verdade. Foi escrava de João de Abreu Araújo; viveu nos Campos Gerais, na segunda metade do século XIX. O fragmento que ficou de memória da sua vida é o seu depoimento à delegacia de Campo Largo, bem como o depoimento do capitão de mato, causa e testemunha de seu ato extremo. Sobre Ignácia, de fato histórico, ficou apenas o registro da tragédia, recuperado pelo Edu na pesquisa para o seu formidável livro “O Jogo da Face – a astúcia escrava frente aos senhores e à lei na Curitiba provincial”

Dos personagens deste romance – os históricos, os inventados, os meio a meio – Ignácia foi aquela que desde o primeiro momento tomou nas mãos as rédeas do seu destino e me deixou claro a que vinha. Da sua legião de apaixonados, fui a primeira e mais arrebatada. Ri com ela. Me apareceu em sonhos, assombrou alguns de meus dias, clareou outros. Chorei com ela e por ela. Me desesperei por não poder poupá-la do martírio, ansiei e senti gratidão por poder lhe proporcionar algum conforto. Mais do que ninguém, odiei a Senhora Eulália com todas as minhas forças.

Tentava adivinhar seus traços, as curvas suaves e fortes da sua beleza; imaginava. Até o dia em que vi Patsy.

Minha Ignácia, ali tomou forma. Sua voz ganhou tons, seu desespero e sua coragem ganharam cores. Patsy e Ignácia, tenho certeza, são a mesma pessoa.

Lupita Nyong´o, cena de “12 anos de escravidão”
Lupita Nyong´o, cena de “12 anos de escravidão”

Paul Harro-Harring não nomeou a escrava protagonista da cena por ele registrada. Tampouco sabemos que punição terá a negra recebido por seu delito. Pelo milagre e sem-cerimônia da ficção, que fique mais esta mulher anônima incorporada à nossa escrava protótipo.

Tomara que a trajetória de alegria, dor e loucura de Ignácia possam minimamente resgatar a memória e dignificar o martírio dos homens e mulheres em cuja pele foi tatuada – literalmente a ferro e fogo - a mais vergonhosa página da nossa história.

Negra acusada de roubar 1840 Paul Harro Harring Acervo Instituto Moreira Salles
Negra acusada de roubar 1840 Paul Harro Harring Acervo Instituto Moreira Salles

Etel Frota

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