Sobre cabeças e heróis: a pedra e a provisoriedade

De como estátuas decapitadas e suas cabeças de pedra permaneceram imóveis, ao longo dos anos, à espera do fotógrafo.

Desde os primórdios da pesquisa, este romance tratava da provisoriedade do herói, sujeito ao instável regime de ventos das conveniências sociais e políticas. Para relatar esses acontecidos, eu precisava de um olhar profundo o suficiente para enxergar e reconhecer os fatos,  ingênuo o suficiente para se espantar com eles, sincero e corajoso o suficiente para nomeá-los. Desta necessidade, nasceu Frei Tristão de Almeida, um padre dominicano, brasileiro, chegando de 23 anos de reclusão em Portugal.

Para que seu olhar trouxesse essas características, ele havia de ter estado longe, isolado, se ocupando das coisas do espírito, enquanto, por aqui, comia solto o nosso Brasil velho de guerra. No processo da invenção da biografia desse padre, visitei em Lisboa, em 2009, dois conventos dominicanos do século XIX: Corpo Santo e São Domingos de Benfica.

Neste segundo, passamos -Alan Romero e eu – uma agradável tarde de verão, caminhando entre os pessegueiros e flores do pomar e ouvindo da freirinha nossa anfitriã uma preleção sobre o lugar.  Aqui e ali, havia algumas impressionantes estátuas, todas acéfalas. Haviam sido vandalizadas, em um período em que o convento fora uma casa de abrigo para menores infratores. As cabeças permaneciam no solo. Eram imagens impressionantes, aquelas cabeças de deuses descartadas em meio a folhas secas, pedras e mato. Fotografei, por mero impulso de registro, algumas daquelas cenas.

Muito tempo depois, já às voltas com a escrita, com essas trajetórias mais bem delineadas – e tendo me deparado com a citação de Mia Couto que epigrafa meu livro, falando sobre a estátua do colono que parecia ter descido voluntariamente do pedestal, “por soma de grandes cansaços” -  lembrei das esculturas decapitadas com suas cabeças de pedra aos pés. Resgatei as fotos. Entre elas havia uma que passou a ser para mim a síntese em imagem do que havia para ser dito. Esta foto me acompanhou durante toda a escrita da narrativa. Quando seguiu sua vocação natural de capa do livro, encaminhada à Cissa Menini (designer da Travessa dos Editores encarregada do projeto gráfico), ouvi dela o que já intuía e temia: a foto não tinha qualidade suficiente para o nobre destino  que eu lhe destinava.

Desconsolada, contei esta história para o Alan Romero, meu cúmplice nessa aventura, que ainda hoje vive em Lisboa. Ele não deixou por menos. Munido de sua máquina fotográfica, rumou novamente para São Domingos de Benfica e, oito anos depois, encontrou as estátuas como as tínhamos deixado em 2009. Desta vez em alta resolução, fez – entre outras, igualmente maravilhosas – a foto da triste  cabeça decepada de Mercúrio que ilustra a capa deste romance.

Foto 1: Etel Frota | Foto 2: Alan Romero

Etel Frota

Contato

  • Fone:

    +55 41 99857-7222

  • E-Mail:

    Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Social