Etel Frota e o canhão

Episódio Cormoran: uma história de heroísmos e provisoriedades

De como se faz ao mar este romance, onde – pela memória do Episódio Cormoran - se irmanam histórias de heróísmo, histórias de vilania, e ficção. Que as Musas lhe concedam força, linguagem justa e bons ventos.

Há cerca de 15 anos, em uma visita à Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, na Ilha do Mel, me deparei, pela primeira vez, com a narrativa do chamado Incidente Cormoran. Fascinada pelo fato e seus atores (bem como pelo ato e seus fatores), desde então venho percorrendo esta rede, em suas incontáveis conexões.

Um breve resumo do fato histórico

A partir de 1845, através do Bill Aberdeen, a Inglaterra assumia a liderança do combate ao tráfico negreiro. Navios de Sua Majestade policiavam os oceanos, e arvoravam-se o direito de apresar embarcações que traficassem escravos, sob qualquer bandeira.

O Brasil tinha uma posição ambivalente a esse respeito. Melhor dizendo, uma clara posição procrastinadora. Aprovara, em 1831, uma lei que declarava livre todo o escravo que entrasse em território brasileiro. Essa lei – promulgada para satisfazer as pressões da Inglaterra – em tese coibia o tráfico negreiro, mas rapidamente os ‘importadores’ se adaptaram à nova realidade e persistiram em sua atividade, com um aumento de lucratividade proporcional ao aumento da ’periculosidade’, praticamente sem sofrer nenhuma repressão. Foi uma lei “para inglês ver” - vem daí a expressão.

Para que  tenhamos uma ideia da inocuidade dessa lei, a entrada de novos escravos no Brasil subiu, em 7 anos (1840 a 1847), de 30.000 para 57.800 ‘peças’.

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A Inglaterra invade Paranaguá

Foi nesse cenário, que, na manhã de 29 de junho de 1850, o Slooper HMS Cormoran, comandado por Herbert Schomberg, adentrou a baía de Paranaguá – à vista e aparentemente com a anuência da Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres – e abordou os navios ali atracados. Informou às autoridades da alfândega que, em nome de Sua Majestade estava procedendo ao arresto de três embarcações, nas quais encontrara evidências de que se prestavam ao tráfico negreiro. Um quarto navio fora posto a pique por seu próprio comandante (houve quem afirmasse que foi afundada com sua carga humana, para fugir ao flagrante).

Provavelmente açulada pelos poderosos locais, cujos interesses econômicos e políticos sofriam um sério revés com a ação inglesa, as tripulações dos navios e cidadãos de Paranaguá se dirigiram à Ilha do Mel, levando munições e equipamentos, e pedindo providências contra a ação britânica ao comandante da Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, o Capitão Joaquim Ferreira Barboza. O Capitão, relutante a princípio, acabou cedendo  à pressão e comandou o ataque ao Cormoran, no dia seguinte, quando o navio deixava a baía de Paranaguá, levando os três brigues apresados. Foi um combate rápido, do qual resultou um marinheiro inglês morto, dois feridos, e dois dos brigues brasileiros avariados. Schomberg incendiou os navios atingidos, à vista da Fortaleza,  seguindo viagem e despachando o único navio que conseguiu realmente apreender para Santa Helena.

A ação heroica do militar não tardou a revelar seu caráter de provisoriedade. Ante a inevitável repercussão diplomática, a responsabilidade pelo incidente recaiu inteiramente no Capitão Joaquim, que respondeu conselho de guerra, acabou por  pedir dispensa do exército, e terminou seus dias anonimamente, doente e desonrado.

Essa é a história, contada em uma linha que oscila entre glória e vilania, em todas as suas nuances.

Há quem defenda, numa lógica acrobática, que o Capitão Joaquim Ferreira Barboza, ao defender interesses do tráfico negreiro, é, na verdade, um grande herói abolicionista, porque sua ação desencadeou repercussões que culminaram na promulgação da Lei Eusébio de Queiroz, que acabou por extinguir verdadeiramente o tráfico, menos de 3 meses depois. Equivaleria, mal comparando, à canonização de Judas como co-protagonista na fundação do cristianismo.

Joaquim Ferreira Barboza era um militar de carreira, e aparentemente tangido por uma grande pressão, tomou uma decisão, militar. Mas quem era o homem, atrás da farda? Este livro, mais que um romance histórico, é uma ficção, uma narrativa que inventa esse homem Joaquim. Foi herói quando convinha aos poderosos, foi vilão de uma vilania alheia, e bode expiatório de um embroglio diplomático de altíssima voltagem,   imensamente maior do que sua compreensão, estatura militar e poder de decisão.

Na pista desta narrativa, Joaquim é posto a conviver, na Paranaguá do século XIX,  com outras figuras históricas e ficcionais: Frei Tristão, dominicano chegado de Lisboa, aportado meio por acaso em Paranaguá, um personagem completamente  inventado;  a escrava Ignácia, personagem real, porém deslocada de seu tempo e espaço reais para a história que aqui se pretende contar. Outros personagens, reais e ficcionais, frequentam  esta narrativa: a gorda, louca e cruel Senhora Eulália, o Comendador Manoel Guimarães, o poeta Manoel da Fonseca, a enfermeira Maria Rocha, o médico Carlos Thobias, o historiador Antonio Vieira dos Santos.

A bordo desta história, com esta tripulação, abusando da metáfora náutica, faço ao mar o meu navio-romance. Bem-vindo, leitor, ao tombadilho.

Foto: Clara Frota

Etel Frota

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