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Os livros de Etel Frota
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Os livros que escrevi

Há duas semanas, me preparando para a Caravana Literária, postei aqui um artigo falando das minhas reminiscências como leitora, e uma foto com os livros que eu amo. Um amigo, ao ver essa imagem, me perguntou – “E você, quantos livros publicou? Sei daquele de poesia (ele falava de Artigo oitavo – poesia escrita, falada e cantada, de 2002) e deste romance que você está lançando, O Herói Provisório (2017). E neste meio tempo?...”

Respondi, meio envergonhada, que nesse meio tempo só houvera o “Lyricas, a construção da canção”, em 2007. Ele se deu por satisfeito, e ainda fez um construtivo comentário : “Consideremos que, já que este romance tem peso 5, equivale a cinco livros”. Eu disse, ele é realmente meu amigo.

Já eu não tinha me dado por satisfeita. Saí dessa conversa com uma inquietação, que podia ser mais ou menos traduzida assim: “Que raios eu tanto escrevo e tão pouco livro publico?”

Tenho 65 anos, 20 de carreira. Já não posso mais dizer, como dizia aos cinquent´epoucos, começando a escrever, que sou uma jovem artista. Vinte anos são duas décadas. Sei que o ´peso 5´ do meu generoso amigo não se referia a isto, mas me pus a pensar, mesquinhamente, no número de páginas publicadas, juntando os três livros. 150 + 250 + 285 = 685. Sim - tentei acalmar meu desconforto – eles param, sozinhos, em pé. Afundando de vez na aritmética mais rasteira: sim, poderiam ter sido, ao invés de 3, 8 livros de 80 páginas.

Mas essa tentativa de auto indulgência não bastou para me sossegar. Afinal, o que é que eu estive fazendo nestes 20 anos, enquanto não estava escrevendo livro?

Passei, então, a fazer algo que nunca antes havia feito. Fui procurar onde estavam as outras palavras que escrevi nesse tempo todo. Aquelas dispersas por aí. Saí tocando meu berrante, a reunir minhas reses desgarradas.

Primeiro, juntei livros de outros autores, nos quais participo de alguma forma: coletâneas, livros para os quais escrevi prefácios, coisas deste tipo. Fui me lembrando de coisas encantadoras. O livro de gramática do Carlos Faraco, em que o tópico “metáfora” é ilustrado com meu poema “Apojadura”, o que nos rendeu (a mim e a ele), recentemente, esta emocionante surpresa (veja aqui). Procurei, e encontrei entre os meus guardados, um outro ‘livro’, artesanal, do qual muito me orgulho – a partitura de “A Lenda de Uakti”, poema sinfônica em 8 movimentos, que compus em parceria com Davi Sartori, para a Orquestra à Base de Sopro do Conservatório de MPB e Coro da Camerata Antiqua de Curitiba.

Isto me deteve na música, na escrita de letras de canção, que tem sido meu ofício principal por muitos anos. Fui juntando os discos em que parceiros musicais e/ou intérpretes gravaram canções com letras minhas e me surpreendi com a quantidade – uns 30 centímetros de CDs enfileirados. É verdade, avaliar produção musical por metragem de caixinha de disco, é mais ou menos como escolher uma tela para a parede pela cor que combine com o sofá. Mas a minha insegurança estava pedindo alguma medida; esta, mesmo não sendo o mais adequado ao caso, me serviu. Fui ficando mais alegrinha, pegando gosto pela coisa.

Procurei livros em que algum escrito meu fora mencionado ou reproduzido. Lembrei-me do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, do qual – orgulhosamente – sou um verbete! http://dicionariompb.com.br/etel-frota Nesta altura, já enveredando pela tentativa de acrescentar um quê de erudição à minha produção, me lembrei de já ter lido, há muito tempo, uma tese de doutorado com a descrição de um clipoema que escrevi e produzi, em parceria com Maurício Souza e Iso Fischer, ORIGAMI.

Enquanto pesquisava isto, tive a grande surpresa de esbarrar, pelos caminhos da internet, com outras citações, que não conhecia, à minha produção poética ou como roteirista / letrista em outros trabalhos acadêmicos:

Como tese puxa tese, lembrei ainda de “Vila Paraíso”, a peça de teatro que escrevi a partir de tese de doutorado de Sônia Davanso, com suas sucessivas remontagens pelo Grupo Pé no Palco, dirigido por Fátima Ortiz, que teve 3 indicações ao Prêmio Gralha Azul, inclusive como melhor texto original. E dos roteiros para espetáculos musicais: “Alphonsus de Guimarães, o poeta da Lua”, “de Ícaros e Dédalos”, “Alice Ruiz, um Sol maior”, “Eu, Stelinha”, “Zé Rodrix, as canções”, “Estrelas Guia”, “Camera Pop”, “Baía de Antonina”. E tantos, tantos outros. Ainda, nesse capítulo roteirista, os roteiros para as mais de 300 edições de “POEMODA, a canção em verso e prosa”, o programa semanal temático na Rádio Educativa, em parceria com Alan Romero. POEMODA, meu xodó, minha cachaça, o exercício quase diário dessa escrita que costura e dá consistência à intesecção entre música e literatura, na sintaxe da paixão.

Finalmente, nos últimos nove meses, como se fosse – e de fato é - uma nova gestação, essa nova aventura, o jornalismo, que promete ser a nova cachaça. Aos 65 anos – focassaura da Folha de S.Paulo - apanhando do texto que tem que caber na retranca, apanhando do editor que não se deixa seduzir e corta sem dó nem piedade os adjetivos e metáforas da minha escrita hiperbólica, apanhando dos prazos, novamente arrancada da minha zona de conforto, volto a sentir o delicioso frio na barriga, o gosto pelo desafio, de novo começando, de novo novata. Delícia.

Foi como fazer um inventário, e valeu. Bom exercício, esse, de parar por um instante o girar da metralhadora, para juntar as palavras esparsas, que venho disparando em todas as direções, àquelas mais bem comportadas, enfileiradas nas 685 páginas dos três livros.

Não pretendo que tais mergulhos narcísicos se repitam. Caso tenha uma recaída, evitarei compartilhá-la. Mas desta vez precisava, à guisa de resposta. Não ao amigo que me fez a pergunta, mas a mim mesma. São esses os livros que eu escrevi – em verso, em prosa, em canção.  

Etel Frota

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